sábado, 1 de agosto de 2009

Mary Ward - Inovação espiritual ou feminismo descarado ?

Convém lembrar das grandes figuras da história católica: uma delas é Mary Ward, esta mulher incomparável que, nas horas mais negras e mais sangrentas, a Inglaterra deu à Igreja”.
SS. Pio XII em 1951

Nascida em 23 de Janeiro de 1585 em uma das famílias católicas mais conhecidas de Yorkshire (Inglaterra), entrou para o Mosteiro das Clarissas em Saint-Omer (França) como noviça em 1606. Fundou um mosteiro para inglesas em Gravelines, mas não percebendo sua vocação na vida contemplativa resolve dedicar seu tempo para o apostolado.

Com vinte e quatro anos forma um grupo de moças dedicadas ao trabalho sobre sua orientação, formando automaticamente uma comunidade religiosa em Saint-Omer no ano de 1609 logo passam a trabalhar em colégios para ricos e pobres.

Surge na comunidade a idéia de viver as mesmas práticas ensinadas pela Companhia de Jesus, coisa que gerou no século dezessete um levante contra as moças rebeldes, suas novas práticas diferem das religiosas de clausura e causa grande estranhamento nos fiéis. Esta nova situação surgia em um momento difícil para os católicos ingleses e para a própria Companhia de Jesus.

Em 1615 os teólogos Francisco Suárez e Lessius são convidados a dar um parecer sobre a nova comunidade que surgia, ambos elogiaram mas perceberam a necessidade de um reconhecimento oficial por parte da Santa Sé. São Pio V havia declarado que a vida religiosa feminina devia restringir-se ao claustro o que criou muitas dificuldades para as moças inglesas, seu instituto já havia se expandido pela Bavária, Áustria, Itália e Flanders. Mary Ward contava com o apoio de imperadores e o próprio geral dos Jesuítas demonstrava particular apreço por seu novo ideal de vida religiosa. Os papas Paulo V, Gregório XV e Urbano VIII sabiam e aprovavam de certa forma a nova comunidade.

A fundadora recebeu o direito de defender a nova comunidade perante o Colégio Cardinalício, contudo os oponentes das "irmãs jesuítas" conseguiram sua supressão em 1630 com o envio da fundadora para a prisão como herege. É convocada novamente pelo Papa Urbano que concede proteção e aprova a nova comunidade, Mary Ward retorna para York onde morre em 1645.

A comunidade em 1073 consegue a aprovação das regras por Clemente XI e reconhecimento como instituto por Pio IX em 1877. O novo instituto é colocado sobre a proteção da Beatíssima Virgem Maria e sua superiora é Madre Bárbara Babthorpe, pelas suas atividades e cidades onde trabalham passam a ser conhecidas como "damas inglesas" ou "irmãs de Loretto". O seu carisma consistia principalmente na educação, formação de professores, instruções para donas de casa e cuidado dos órfãos, muitas das irmãs entraram para a história como escritoras.

Nos últimos séculos o Instituto da Beatíssima Virgem Maria foi divido em ramos, o ramo principal em 2004 altera o nome da fundação para Congregação de Jesus em uma tentativa de "atualização" do carisma e o Instituto presente na Irlanda assume o nome de Irmãs de Loretto tendo como fundadora Ir.Teresa Ball.

A história de Mary Ward oferece vasto campo para diferentes interpretações, em recente entrevista para a RedeVida a provincial brasileira afirmava que a importância de Mary Ward residia em ser a "primeira feminista católica", tal simples afirmação contém um grande erro de interpretação da própria fundadora. Erro corrigido em outros casos como no próprio nome do Instituto que é alterado em vista de um maior entendimento do carisma ou do hábito que abandonado por motivos pastorais também não respondia aos anseios modernos.

Na mesma entrevista estava presente a provincial da congregação no Chile, com uma postura totalmente diferente e usando hábito, a religiosa defendeu a ortodoxia presente nas atitudes de Mary Ward, suas constantes viagens pela Europa e visitas ao Santo Padre pedindo o reconhecimento do novo instituto e da nova forma de vida religiosa são provas de seu amor e obediência para com a Igreja e não feminismo exaltado diante de um "clero machista".

"O amor de Deus é como fogo que não se deixa encerrar, pois é impossível amar a Deus e não divulgar sua glória." Mary Ward

A religiosa chilena ainda lembrou a sua inovação espiritual em estender a prática dos Exercícios Espirituais pela Inglaterra e por suas comunidades, e que por ironia passou a ser chamada "Santo Inácio de Loyola de véu", a exigência que continuamente fazia para que as irmãs seguissem firmemente a espiritualidade apresentada pela fundador da Companhia.

Uma rápida passada de olhos pelos sites das comunidades e perceberemos desde uma análise ortodoxa das atitudes e pensamentos da fundadora até um exaltado orgulho de sua aparente "postura feminista". A história de Mary Ward, como fundadora e religiosa, não é a primeira a sofrer as influências nefastas de uma postura extremamente social que transforma inovadora vida religiosa em feminismo libertador.

Triste é saber que a realidade religiosa brasileira apresentada por certos "católicos" não é exclusiva, triste também, é ver exemplos claros de uma vida religiosa sincera e realizada tão próxima de nós (no Chile por exemplo) e saber que mesmo sendo uma ótima idéia, ortodoxia não é transmitida pelos ares ou por osmose.

Frases de Mary Ward

"Nós temos uma só tarefa: executar a vontade de Deus em todas as nossas ações."

"Eu sempre amei a luz e fiz todas as coisas à luz do dia e da minha consciência."

"Envergonhe-se de dizer que no serviço de Deus alguma coisa custa a fazer, pois àquele que ama, tudo é fácil."

"O espírito de Deus não é grosseiro, mas ensina toda cortesia."

"Só as pessoas verdadeiramente amantes é que são aptas para toda obra boa. Persevera no serviço de Deus até o fim."

"Em tudo quero deixar-me guiar pela vontade de Deus."
















Ir. Teresa Ball, fundadora do ramo
de Loretto

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