
Algo raro hoje é encontrar um local em que a Liturgia seja respeitada em toda sua sublimidade, e quando encontramos tais lugares assemelham-se a pequenos oásis onde os sedentos podem beber durante algum tempo de um manancial tão puro e antigo.
Nos habituamos a denunciar os abusos, e da mesma forma, devemos anunciar onde existem tais oásis. Hoje toda a venerável Ordem Carmelita celebra sua mais que reverendíssima Patrona, na cidade de São Paulo existe um Carmelo, onde as monjas descalças guardam a mais absoluta clausura, Carmelo com o qual desde a certo tempo venho travando certos contatos.
Sabendo que pela manhã seria celebrada a Missa Solene, não pensei duas vezes se iria. A capela do mosteiro é simples e sem grandes ornamentos, no altar-mor dominam as imagens de Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz e Santa Teresa do Menino Jesus; um belo retábulo contém o Sacrário ladeado por seis grandes castiçais. O altar é simples e mais simples ainda o ambão e a sede.
Dois altares laterais são presididos pelas imagens da Virgem do Monte Carmelo e o outro pelo Excelso São José, do pequeno presbitério avista-se a grade que dá para o coro das religiosas, entre a grande e o coro duas enormes treliças de madeira impedem a visualização das religiosas em seus momentos privados de oração; ao lado um comungatório simples e que pela solenidade celebrada encontrava-se ornado com flores. Uma lamparina suspensa acima do presbitério indica a presença Eucarística, tudo inspira a mais sincera humildade, as flores são singelas, as alfaias sem grandes ornamentos.
Na sacristia reina a mais perfeita ordem, um grande acaz domina todo o espaço sendo encimado por um crucifixo, em uma sala lateral encontra-se a roda pela qual a monja sacristã mantém contato com o sacristão.
Um santo sacerdote antes da Santa Missa atende ao fiéis em confissão, piedosas senhoras recitam o rosário e os fiéis em grupos vão chegando e lotando aos poucos a pequena capela. A cena é no mínimo interiorana, véus vão sendo retirados das bolsas, senhores abrem os missais...a cena é atemporal.
Como acólito sou convidado a acender as velas do altar e pela proximidade da grade ouve-se o afinar de alguns instrumentos, roucas vozes parecem passar pelas treliças centenárias de madeira. As grades munidas de grossos espinhos oferecem um aspecto sombrio ao que ali dentro se desenrola.
Saímos da sacristia e nos preparamos para a procissão de entrada, do fundo da capela a visão que nos é oferecida é memorável, o altar florido e iluminado, bancos lotados e o rosário sendo recitado. Quando algo interrompe o passar dos terços, duas pequenas mãos abrem as treliças, acendem-se as luzes do coro e uma monja com voz quase infantil recita as intenções do dia, as quais vão desde falecimentos até profissões religiosas.
Um doce flauta puxa o coro de vozes femininas que cantam as glórias da Excelsa Patrona Carmelita, a procissão segue, todos acompanham reverentes e silenciosos. A fumaça do incenso que sobe ladeando o altar não se importa com as duras grades e invade o coro das religiosas encobrindo-as mais uma vez com sua couraça opaca. Pequenas e grandes, idosas e jovens, sorridentes e sérias, todas voltadas para o presbitério em seu hábito solene prestam a mais digna atenção. No fundo do coro uma imagem da Virgem enfeitada com flores preside a assembléia.
Suaves sons de flauta doce, violino e órgão trocam de lugar com o incenso e invadem a capela pelas grades causando a mais visível alegria nos fiéis.
A Santa Missa prossegue, as religiosas vão proclamando as leituras de forma pausada que somente quem desconhece o tempo e ama a eternidade poderia fazer, o salmo é cantado a plenos pulmões por algumas noviças e postulantes que se escondem por trás de véus brancos. Todas ouvem a homilia sentadas em pequenas banquetas de madeira no meio do coro, o que permite visualizar o campo florido de véus brancos e pretos, as capas que caindo no chão parecem asas descansando do vôo. Um solo de violino introduz o ofertório, todas atentas oferecem a própria vida junto com as oblatas (como é costume entre as monjas carmelitas), pela consagração todas se ajoelham, que visão bela...tal qual a entrada de uma grande dignidade todas de cabeças curvadas, os hábitos parecem sem vida, mãos e rostos não são vistos, a sineta e o turíbulo ritmam a contemplação. No momento da comunhão, ao som de Ave Verum Corpus (que retirou um reprimido suspiro da assembléia) a porta do comungatório é aberta e uma por uma elas passam diante do sacerdote que lhes ministra o Santíssimo Sacramento, voltam todas silenciosas para os lugares e tal qual na comunhão totalmente encobertas e voltadas para dentro de si, nada pode as preocupar, a união é tal que as impede de olhar para fora.
Terminada a benção final, o sacerdote dirigi-se até a grade e por uma pequena entrada aberta pela madre, oferece a cada irmã um escapulário que é recebido com um sorriso ou algum aviso para o padre. Bem sabe o padre que aqueles escapulários servirão para muitos outros e não para elas. As treliças são fechadas mais uma vez, tal qual um viveiro de aves é fechado após receberem o alimento, novamente roucas vozes passam pelo metal e pela madeira, oferecendo a capela agora já quase vazia e escura um semblante sereno e despreocupado.
Qual a vontade daqueles que ali estiveram, de arrancar as grades e pedir que aquelas pequenas aves voassem mundo afora e com suas vozes infantis e roucas cantassem os amores do Amado. Inveja dos que tendo de sair não podem fechar as grades da capela e com elas encerrar-se e em silêncio quem sabe passar o dia ali, sabendo da dificuldade que encontrariam em ter que sair daquele pequeno viveiro celestial, desdobram-se em conversas no locutório, vencendo o cansaço de horas no coro em ofício ou nos afazeres do mosteiro e oferecem pequenos bálsamos aos fiéis: promessas de orações, sacrifícios, sorrisos e esperanças.
Nos habituamos a denunciar os abusos, e da mesma forma, devemos anunciar onde existem tais oásis. Hoje toda a venerável Ordem Carmelita celebra sua mais que reverendíssima Patrona, na cidade de São Paulo existe um Carmelo, onde as monjas descalças guardam a mais absoluta clausura, Carmelo com o qual desde a certo tempo venho travando certos contatos.
Sabendo que pela manhã seria celebrada a Missa Solene, não pensei duas vezes se iria. A capela do mosteiro é simples e sem grandes ornamentos, no altar-mor dominam as imagens de Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz e Santa Teresa do Menino Jesus; um belo retábulo contém o Sacrário ladeado por seis grandes castiçais. O altar é simples e mais simples ainda o ambão e a sede.
Dois altares laterais são presididos pelas imagens da Virgem do Monte Carmelo e o outro pelo Excelso São José, do pequeno presbitério avista-se a grade que dá para o coro das religiosas, entre a grande e o coro duas enormes treliças de madeira impedem a visualização das religiosas em seus momentos privados de oração; ao lado um comungatório simples e que pela solenidade celebrada encontrava-se ornado com flores. Uma lamparina suspensa acima do presbitério indica a presença Eucarística, tudo inspira a mais sincera humildade, as flores são singelas, as alfaias sem grandes ornamentos.
Na sacristia reina a mais perfeita ordem, um grande acaz domina todo o espaço sendo encimado por um crucifixo, em uma sala lateral encontra-se a roda pela qual a monja sacristã mantém contato com o sacristão.
Um santo sacerdote antes da Santa Missa atende ao fiéis em confissão, piedosas senhoras recitam o rosário e os fiéis em grupos vão chegando e lotando aos poucos a pequena capela. A cena é no mínimo interiorana, véus vão sendo retirados das bolsas, senhores abrem os missais...a cena é atemporal.
Como acólito sou convidado a acender as velas do altar e pela proximidade da grade ouve-se o afinar de alguns instrumentos, roucas vozes parecem passar pelas treliças centenárias de madeira. As grades munidas de grossos espinhos oferecem um aspecto sombrio ao que ali dentro se desenrola.
Saímos da sacristia e nos preparamos para a procissão de entrada, do fundo da capela a visão que nos é oferecida é memorável, o altar florido e iluminado, bancos lotados e o rosário sendo recitado. Quando algo interrompe o passar dos terços, duas pequenas mãos abrem as treliças, acendem-se as luzes do coro e uma monja com voz quase infantil recita as intenções do dia, as quais vão desde falecimentos até profissões religiosas.
Um doce flauta puxa o coro de vozes femininas que cantam as glórias da Excelsa Patrona Carmelita, a procissão segue, todos acompanham reverentes e silenciosos. A fumaça do incenso que sobe ladeando o altar não se importa com as duras grades e invade o coro das religiosas encobrindo-as mais uma vez com sua couraça opaca. Pequenas e grandes, idosas e jovens, sorridentes e sérias, todas voltadas para o presbitério em seu hábito solene prestam a mais digna atenção. No fundo do coro uma imagem da Virgem enfeitada com flores preside a assembléia.
Suaves sons de flauta doce, violino e órgão trocam de lugar com o incenso e invadem a capela pelas grades causando a mais visível alegria nos fiéis.
A Santa Missa prossegue, as religiosas vão proclamando as leituras de forma pausada que somente quem desconhece o tempo e ama a eternidade poderia fazer, o salmo é cantado a plenos pulmões por algumas noviças e postulantes que se escondem por trás de véus brancos. Todas ouvem a homilia sentadas em pequenas banquetas de madeira no meio do coro, o que permite visualizar o campo florido de véus brancos e pretos, as capas que caindo no chão parecem asas descansando do vôo. Um solo de violino introduz o ofertório, todas atentas oferecem a própria vida junto com as oblatas (como é costume entre as monjas carmelitas), pela consagração todas se ajoelham, que visão bela...tal qual a entrada de uma grande dignidade todas de cabeças curvadas, os hábitos parecem sem vida, mãos e rostos não são vistos, a sineta e o turíbulo ritmam a contemplação. No momento da comunhão, ao som de Ave Verum Corpus (que retirou um reprimido suspiro da assembléia) a porta do comungatório é aberta e uma por uma elas passam diante do sacerdote que lhes ministra o Santíssimo Sacramento, voltam todas silenciosas para os lugares e tal qual na comunhão totalmente encobertas e voltadas para dentro de si, nada pode as preocupar, a união é tal que as impede de olhar para fora.
Terminada a benção final, o sacerdote dirigi-se até a grade e por uma pequena entrada aberta pela madre, oferece a cada irmã um escapulário que é recebido com um sorriso ou algum aviso para o padre. Bem sabe o padre que aqueles escapulários servirão para muitos outros e não para elas. As treliças são fechadas mais uma vez, tal qual um viveiro de aves é fechado após receberem o alimento, novamente roucas vozes passam pelo metal e pela madeira, oferecendo a capela agora já quase vazia e escura um semblante sereno e despreocupado.
Qual a vontade daqueles que ali estiveram, de arrancar as grades e pedir que aquelas pequenas aves voassem mundo afora e com suas vozes infantis e roucas cantassem os amores do Amado. Inveja dos que tendo de sair não podem fechar as grades da capela e com elas encerrar-se e em silêncio quem sabe passar o dia ali, sabendo da dificuldade que encontrariam em ter que sair daquele pequeno viveiro celestial, desdobram-se em conversas no locutório, vencendo o cansaço de horas no coro em ofício ou nos afazeres do mosteiro e oferecem pequenos bálsamos aos fiéis: promessas de orações, sacrifícios, sorrisos e esperanças.
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